Endocardite Infecciosa Por Hacek: Relato De Caso
DOI:
https://doi.org/10.37497/JMRReview.v2i1.38Palavras-chave:
Infecção cardíaca, Endocardite, Cardiologia, Clínica MédicaResumo
Introdução: A endocardite infecciosa (EI) é uma infecção do endotélio cardíaco que pode ser provocada usualmente por bactérias e fungos. O crescimento superficial destes microrganismos (MOs) pode causar embolia em vários órgãos, como rins, pulmões, pele, cérebro e sistema nervoso central, levando a morte se não tratada adequadamente. A EI provocada por bactérias HACEK (Haemophilus spp., Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Cardiobacterium hominis, Eikenella corrodens e Kingella kingae) afeta principalmente pacientes com doença cardíaca prévia ou válvulas artificiais, e é caracterizada por um curso insidioso, com atraso médio no diagnóstico de um mês (quando provocada por Haemophilus spp.) a 3 meses (quando causada por Aggregatibacter ou Cardiobacterium spp.).
Objetivo: Relatar um caso de EI provocada por MOs do grupo HACEK. Método: Trata-se do relato de um paciente atendido no Hospital Universitário São Francisco na Providência de Deus – HUSF, localizado na cidade de Bragança Paulista - SP.
Relato do Caso: Este relato descreve o caso de um paciente do sexo masculino, 50 anos, com histórico de febre persistente, sudorese, calafrios, fadiga e perda ponderal. Após avaliação clínica, o paciente foi diagnosticado com EI, com base nos achados clínicos, laboratoriais e de imagem, incluindo anemia microcítica, leucocitose com desvio à esquerda, PCR e VHS elevadas, presença de sopro diastólico, além de evidências de comprometimento valvar cardíaco no ecocardiograma transtorácico. Hemoculturas identificaram a bactéria A. aphrophilus como a causa da EI, e o tratamento com ceftriaxona foi iniciado. Devido à disfunção valvar significativa, o paciente foi submetido à cirurgia cardíaca com troca da valva tricúspide por uma prótese mitral, seguido por acompanhamento ambulatorial/cardiológico e avaliação odontológica.
Conclusão: Os MOs HACEK podem provocar EI em pacientes de diversas faixas etárias, incluindo crianças, e sua capacidade de afetar tanto válvulas nativas quanto protéticas ressalta a importância de uma abordagem clínica ampla e de alto índice de suspeita para o diagnóstico preciso. Além disso, a manutenção da saúde bucal e o controle de cáries são fatores importantes para a prevenção dessas infecções, e o uso de exames de imagem, como tomografias e ecocardiogramas, e a realização de culturas sanguíneas desempenham um papel fundamental na identificação e tratamento adequado dos pacientes com EI provocada por este grupo de bactérias. Portanto, a compreensão desses aspectos é essencial para melhorar o diagnóstico e a gestão clínica dessas infecções, que podem levar a morbidade substancial e mortalidade se não detectadas e tratadas a tempo.
Referências
BADDOUR, L. M. et al. Infective Endocarditis in Adults: Diagnosis, Antimicrobial Therapy, and Management of Complications: A Scientific Statement for Healthcare Professionals From the American Heart Association. Circulation, v. 132, n. 15, p. 1435–1486, 13 out. 2015.
BARON, E. J.; SCOTT, J. D.; TOMPKINS, L. S. Prolonged incubation and extensive subculturing do not increase recovery of clinically significant microorganisms from standard automated blood cultures. Clinical Infectious Diseases: An Official Publication of the Infectious Diseases Society of America, v. 41, n. 11, p. 1677–1680, 1 dez. 2005. DOI: https://doi.org/10.1086/497595
BERGE, A. et al. Epidemiology, bacteriology, and clinical characteristics of HACEK bacteremia and endocarditis: a population-based retrospective study. European Journal of Clinical Microbiology & Infectious Diseases, v. 40, n. 3, p. 525–534, 2021. DOI: https://doi.org/10.1007/s10096-020-04035-y
BROUQUI, P.; RAOULT, D. Endocarditis due to rare and fastidious bacteria. Clinical Microbiology Reviews, v. 14, n. 1, p. 177–207, jan. 2001. DOI: https://doi.org/10.1128/CMR.14.1.177-207.2001
CAHILL, T. J. et al. Challenges in Infective Endocarditis. Journal of the American College of Cardiology, v. 69, n. 3, p. 325–344, 24 jan. 2017. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jacc.2016.10.066
CHAMBERS, S. T. et al. HACEK infective endocarditis: characteristics and outcomes from a large, multi-national cohort. PloS One, v. 8, n. 5, p. e63181, 2013. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0063181
CORREA DE SA, D. D. et al. Epidemiological trends of infective endocarditis: a population-based study in Olmsted County, Minnesota. Mayo Clinic Proceedings, v. 85, n. 5, p. 422–426, maio 2010. DOI: https://doi.org/10.4065/mcp.2009.0585
DAS, M. et al. Infective endocarditis caused by HACEK microorganisms. Annual Review of Medicine, v. 48, p. 25–33, 1997. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev.med.48.1.25
DURACK, D. T.; LUKES, A. S.; BRIGHT, D. K. New criteria for diagnosis of infective endocarditis: utilization of specific echocardiographic findings. Duke Endocarditis Service. The American Journal of Medicine, v. 96, n. 3, p. 200–209, mar. 1994. DOI: https://doi.org/10.1016/0002-9343(94)90143-0
FORTINI, M. B.; MCNEIL, J. C. HACEK Infective Endocarditis at a Tertiary Children’s Hospital. The Journal of Pediatrics, v. 235, p. 284–287, ago. 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jpeds.2021.05.011
HABIB, G. et al. 2015 ESC Guidelines for the management of infective endocarditis: The Task Force for the Management of Infective Endocarditis of the European Society of Cardiology (ESC). Endorsed by: European Association for Cardio-Thoracic Surgery (EACTS), the European Association of Nuclear Medicine (EANM). European Heart Journal, v. 36, n. 44, p. 3075–3128, 21 nov. 2015. DOI: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehv319
KHALEDI, M. et al. Infective endocarditis by HACEK: a review. Journal of Cardiothoracic Surgery, v. 17, p. 185, 19 ago. 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s13019-022-01932-5
KUOHN, L. R. et al. Bacterial endocarditis with AACEK (HACEK) organisms. Echocardiography (Mount Kisco, N.Y.), v. 39, n. 10, p. 1348–1358, out. 2022. DOI: https://doi.org/10.1111/echo.15440
LEPIDI, H. et al. Autoimmunohistochemistry: a new method for the histologic diagnosis of infective endocarditis. The Journal of Infectious Diseases, v. 193, n. 12, p. 1711–1717, 15 jun. 2006. DOI: https://doi.org/10.1086/504438
MORRIS, A. J. et al. Gram stain, culture, and histopathological examination findings for heart valves removed because of infective endocarditis. Clinical Infectious Diseases: An Official Publication of the Infectious Diseases Society of America, v. 36, n. 6, p. 697–704, 15 mar. 2003. DOI: https://doi.org/10.1086/367842
MUÑOZ, P. et al. Current Epidemiology and Outcome of Infective Endocarditis: A Multicenter, Prospective, Cohort Study. Medicine, v. 94, n. 43, p. e1816, out. 2015. DOI: https://doi.org/10.1097/MD.0000000000001816
MURDOCH, D. R. et al. Clinical presentation, etiology, and outcome of infective endocarditis in the 21st century: the International Collaboration on Endocarditis-Prospective Cohort Study. Archives of Internal Medicine, v. 169, n. 5, p. 463–473, 9 mar. 2009. DOI: https://doi.org/10.1001/archinternmed.2008.603
NISHIMURA, R. A. et al. 2014 AHA/ACC guideline for the management of patients with valvular heart disease: executive summary: a report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force on Practice Guidelines. Journal of the American College of Cardiology, v. 63, n. 22, p. 2438–2488, 10 jun. 2014.
PATUREL, L. et al. Actinobacillus actinomycetemcomitans endocarditis. Clinical Microbiology and Infection: The Official Publication of the European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases, v. 10, n. 2, p. 98–118, fev. 2004. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1469-0691.2004.00794.x
RAJANI, R.; KLEIN, J. L. Infective endocarditis: A contemporary update. Clinical Medicine, v. 20, n. 1, p. 31–35, jan. 2020. DOI: https://doi.org/10.7861/clinmed.cme.20.1.1
REVEST, M. et al. HACEK endocarditis: state-of-the-art. Expert Review of Anti-Infective Therapy, v. 14, n. 5, p. 523–530, 2016. DOI: https://doi.org/10.1586/14787210.2016.1164032
SELTON-SUTY, C. et al. Preeminence of Staphylococcus aureus in infective endocarditis: a 1-year population-based survey. Clinical Infectious Diseases: An Official Publication of the Infectious Diseases Society of America, v. 54, n. 9, p. 1230–1239, maio 2012. DOI: https://doi.org/10.1093/cid/cis199
SHARARA, S. L. et al. HACEK endocarditis: a review. Expert Review of Anti-Infective Therapy, v. 14, n. 6, p. 539–545, jun. 2016. DOI: https://doi.org/10.1080/14787210.2016.1184085
TOYODA, N. et al. Trends in Infective Endocarditis in California and New York State, 1998-2013. JAMA, v. 317, n. 16, p. 1652–1660, 25 abr. 2017. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2017.4287
VON REYN, C. F. et al. Infective endocarditis: an analysis based on strict case definitions. Annals of Internal Medicine, v. 94, n. 4 pt 1, p. 505–518, abr. 1981. DOI: https://doi.org/10.7326/0003-4819-94-4-505
WASSEF, N. et al. HACEK-induced endocarditis. BMJ case reports, v. 2013, p. bcr2012007359, 15 maio 2013. DOI: https://doi.org/10.1136/bcr-2012-007359
WERNER, M. et al. A clinical study of culture-negative endocarditis. Medicine, v. 82, n. 4, p. 263–273, jul. 2003. DOI: https://doi.org/10.1097/01.md.0000085056.63483.d2
WERNER, M. et al. A 10-year survey of blood culture negative endocarditis in Sweden: aminoglycoside therapy is important for survival. Scandinavian Journal of Infectious Diseases, v. 40, n. 4, p. 279–285, 2008. DOI: https://doi.org/10.1080/00365540701642112
YALLOWITZ, A. W.; DECKER, L. C. Infectious Endocarditis. Em: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2023.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
O(s) autor(es) autoriza(m) a publicação do texto na da revista;
O(s) autor(es) garantem que a contribuição é original e inédita e que não está em processo de avaliação em outra(s) revista(s);
A revista não se responsabiliza pelas opiniões, idéias e conceitos emitidos nos textos, por serem de inteira responsabilidade de seu(s) autor(es);
É reservado aos editores o direito de proceder a ajustes textuais e de adequação às normas da publicação.
Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre) em http://opcit.eprints.org/oacitation-biblio.html